O Bradesco (BBDC4) divulgou nesta semana seu balanço do terceiro trimestre de 2025, e, embora tenha apresentado lucros dentro das expectativas, as ações recuaram mais de 3% no pregão seguinte à divulgação. A reação negativa do mercado reflete mais a diferença entre expectativa e realidade do que, de fato, um desempenho ruim.
Como disse o próprio CEO do banco, Marcelo Noronha, o “mercado esperava demais”. A ação subiu fortemente nos últimos meses e, agora, investidores ajustam suas projeções. “Mesmo que a ação caia 3% ou 4%, isso não reflete o resultado operacional do banco. É um ajuste natural, resultado da valorização anterior. Ganhamos 23%, devolvemos 3%, ficamos com 20% de valorização líquida — do trimestre passado para este”, afirmou Noronha.
Resultados: lucro em alta e rentabilidade em recuperação
O lucro líquido recorrente do Bradesco somou R$ 6,2 bilhões, um aumento de 2,3% em relação ao trimestre anterior e 18,8% na comparação anual. O número veio em linha com o consenso de mercado e reforça o avanço gradual do banco em seu plano de reestruturação iniciado em 2024.
O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) atingiu 14,4%, com alta de 1,4 ponto percentual, indicando uma melhoria consistente da rentabilidade — algo que vinha sendo um desafio para o banco desde o início do ciclo de juros altos.
Segundo relatório da Genial Investimentos, o Bradesco entregou sua sétima alta sequencial de lucro, sustentada por uma margem financeira sólida com clientes e crescimento contínuo das receitas. A margem financeira com clientes (NII Clientes) ultrapassou os R$ 18 bilhões, superando o patamar médio dos anos anteriores, quando o indicador ficava em torno de R$ 16 bilhões.
Além disso, o segmento de seguros manteve o bom momento, registrando ROE de 22,4%, com crescimento dos prêmios e melhora no resultado financeiro.
Para o Banco Safra, o balanço foi “saudável e alinhado ao prometido”. A margem financeira com clientes, que chegou a 9%, reflete o sucesso da renovação da carteira de crédito e o foco em produtos de maior rentabilidade.
O JPMorgan também destacou a melhora das margens de juros (NII e NIM) e a eficiência operacional. “O Bradesco continua avançando na execução de sua estratégia, com aumento gradual da rentabilidade”, pontuou o banco americano.
Provisões sobem, mas risco é controlado
Nem tudo foi positivo. Um ponto de atenção nos números foi a alta das provisões para perdas com crédito, que subiram 20% em um ano, atingindo R$ 9,4 bilhões, cerca de 5% acima do estimado pelo BTG Pactual.
Apesar disso, o Bradesco mantém uma carteira de crédito considerada saudável e não prevê aumento da inadimplência até o fim de 2025. Segundo Noronha, a deterioração se concentra em segmentos pontuais, especialmente no agronegócio, que ainda sofre com o impacto das condições climáticas e da queda nos preços das commodities.
O executivo ressaltou que o apetite por risco segue controlado e que o banco não vê preocupações significativas no crédito corporativo. “Há alguns soluços no financiamento de máquinas e equipamentos, mas nada que tire o sono”, afirmou.
Oportunidade ou armadilha? O que dizem as casas de análise
Embora o mercado tenha reagido com cautela, os analistas divergem sobre o potencial de valorização das ações.
Para o Safra, a queda recente abre boa oportunidade de compra, já que o banco “segue no caminho certo para superar o custo de capital e alcançar ROE acima de 16% nos próximos trimestres”.
A Genial Investimentos também mantém recomendação de compra, citando “progresso consistente no turnaround” e “melhoria contínua da rentabilidade”.
O BTG Pactual, por outro lado, continua com recomendação neutra, mas reconhece potencial de valorização de médio prazo. “O Bradesco segue ajustando seu portfólio e reforçando o foco em clientes de alta renda. Ainda vemos espaço para ganhos nos próximos 6 a 12 meses”, diz o relatório.
Já o JPMorgan e a XP Investimentos adotam visão mais cautelosa, também com recomendação neutra. A XP destaca que o banco parece ter atingido uma nova base de normalização dos lucros, e que o desafio será sustentar ROE acima de 15% em um cenário de crédito ainda apertado.
“O Bradesco está no caminho certo, mas o mercado quer mais. Sustentar crescimento de lucros com estabilidade no custo de crédito será o divisor de águas”, afirma a XP.
Comparativo e perspectivas
No comparativo entre os grandes bancos, o Bradesco segue atrás do Itaú (ITUB4) em rentabilidade, mas reduz a distância trimestre após trimestre. O BTG ainda vê o Itaú como “melhor posicionado estruturalmente”, mas coloca o Bradesco como segunda opção preferida entre os bancões.
| Casa de Análise | Recomendação | Preço-alvo | Potencial de Alta |
|---|---|---|---|
| JPMorgan | Neutra | R$ 18,00 | -1,5% |
| Genial | Compra | R$ 21,20 | +15,9% |
| XP Investimentos | Neutra | R$ 17,00 | -7,0% |
| BTG Pactual | Neutra | R$ 19,00 | +3,9% |
| Safra | Compra | R$ 21,00 | +14,9% |
A reação negativa do mercado ao balanço do Bradesco (BBDC4) parece mais técnica do que fundamental. O banco entregou resultados consistentes, mostrou avanço em margens e lucro e segue em trajetória de recuperação gradual e sustentável.
Para o investidor de médio e longo prazo, a ação pode representar uma boa oportunidade de entrada após a correção recente, especialmente se o ciclo de corte da Selic continuar e favorecer o setor bancário.
Ainda que o Itaú siga sendo a preferência entre os bancões, o Bradesco mostra que sua virada está em curso — e que o pior já ficou para trás.