O Banco BRB mantém participação em oito fundos de investimento que aparecem no esquema de fraudes envolvendo o Banco Master, segundo balanços da instituição comandada por Daniel Vorcaro e um rastreamento feito pela Folha. Com isso, o banco estatal do Distrito Federal passou a integrar uma estrutura que reúne R$ 8 bilhões em ativos.
Esses fundos fazem parte do chamado conglomerado do Banco BRB, o que significa que o banco aparece como cotista dessas estruturas. A ligação revela um nível de exposição até então pouco conhecido entre o BRB e o Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.
Quais são os fundos ligados ao Banco BRB
Os fundos Cartago, CMX Realty III, Jeitto, Kyra, Strelitzia, Supreme Realty, Tessalia e Texas I são listados pelo Banco Central como integrantes do conglomerado do Banco BRB. Em balanços do Banco Master, essas estruturas aparecem com o banco de Vorcaro atuando como cotista direto ou indireto, administrador ou gestor.
Dois desses fundos fazem parte de investigações do Ministério Público Federal e são apontados como suspeitos de integrar a teia de fraudes envolvendo o Master. Segundo a apuração, a participação do Banco BRB nesses fundos está sob análise de uma auditoria externa contratada pelo próprio banco estatal.
Fundos usados para compensar perdas do BRB
De acordo com pessoas com conhecimento das operações, parte desses fundos foi entregue ao Banco BRB como forma de compensar prejuízos sofridos com a compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master, descritas nas investigações como carteiras problemáticas.
O Banco BRB já reconheceu perdas de R$ 2,6 bilhões relacionadas a essas operações. A sobreposição entre fundos ligados ao Master e estruturas que passaram a integrar o conglomerado do BRB é um dos pontos centrais da auditoria interna e externa em andamento.
Ativos ligados diretamente à família Vorcaro
Entre os R$ 8 bilhões em ativos desses fundos, dados da Comissão de Valores Mobiliários mostram investimentos ligados diretamente a negócios da família Vorcaro.
O fundo imobiliário Supreme Realty, listado como parte do conglomerado do Banco BRB, investiu R$ 145 milhões na empresa MGI Desenvolvimento Imobiliário SPE, da qual Natália Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro, é diretora. Natália é casada com Fabiano Zettel, que chegou a ser preso e depois solto na segunda fase da Operação Compliance Zero.
Outro caso envolve o fundo Strelitzia, que tem participação de R$ 452 milhões na empresa A.Life Partners, dona de bares e restaurantes como Nino Cucina e Ninetto.
Operações com bares, restaurantes e CDBs do Master
Em 23 de outubro de 2024, o fundo Strelitzia adquiriu R$ 210 milhões em ações da A.Life. Os vendedores foram a própria empresa e um fundo da XP. Daniel Vorcaro aparece no contrato como interveniente anuente, sem que o documento especifique em que condição ele atuou.
O pagamento foi feito em dinheiro, mas com uma condição relevante: os vendedores se comprometeram a aplicar os recursos recebidos em CDBs do Banco Master, com rendimento de 100% do CDI. Essa obrigação consta das demonstrações financeiras do fundo.
Do total, R$ 180 milhões foram destinados a um fundo de private equity da XP, que aplicou o valor em CDBs do Master com vencimento em outubro de 2025, um mês antes da liquidação do banco. Outros R$ 29 milhões ficaram com a A.Life, que também adquiriu CDBs do Master, com prazo de três anos.
Ambipar e investigação sobre manipulação de mercado
Dois fundos do conglomerado do Banco BRB — Texas I e Kyra — são citados em investigações do Ministério Público Federal por operações envolvendo ações da Ambipar, empresa que entrou em recuperação judicial.
Esses fundos, em conjunto com um terceiro, chegaram a deter 15% do capital social da empresa. Segundo documentos da investigação, as operações reduziram o free float em cerca de 70%, o que teria impulsionado uma forte valorização das ações.
Os papéis da Ambipar subiram de R$ 13 para R$ 97,35 entre 28 de junho e 9 de agosto de 2024, movimento que também passou a ser analisado pela CVM.
Ligação com o Banco Master e veto do BC
Entre março e setembro de 2025, o Banco BRB acertou a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais do Banco Master. A operação, no entanto, foi vetada pelo Banco Central.
Segundo as investigações, o regulador identificou a venda de cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito fraudulentas do Master para o banco de Brasília. O caso segue sob investigação da Polícia Federal.
A reportagem procurou o Banco BRB, o governador Ibaneis Rocha e o Banco Master, mas não houve resposta aos questionamentos até a publicação.
Conheça as instituições que fazem parte do conglomerado do Banco Master