O agronegócio brasileiro vive um momento de forte pressão financeira. De acordo com levantamento da Serasa Experian, os pedidos de recuperação judicial no agronegócio aumentaram cerca de 150% no terceiro trimestre de 2025 em comparação com o mesmo período do ano passado, marcando o maior número trimestral desde o início da série histórica em 2021.
A alta na comparação trimestral também foi significativa: 11,15% a mais do que o número registrado no segundo trimestre deste ano. Os dados refletem o aumento da fragilidade financeira de produtores rurais e empresas do setor agropecuário.
“O avanço dos pedidos de recuperação judicial evidencia um período mais desafiador para a capacidade de produtores e empresas manterem seus fluxos de caixa e pagamentos, principalmente aqueles que vêm há anos rolando dívidas sem ajustes estruturais”, afirmou Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian.
Ambiente de crédito se deteriora no campo
A elevação dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio tem provocado efeitos colaterais relevantes. O ambiente de crédito no setor agrícola está se tornando mais restritivo, segundo Pimenta, com bancos e credores cada vez mais cautelosos na liberação de financiamentos.
A avaliação é compartilhada por autoridades do governo. Em declaração no início de dezembro, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, afirmou que a judicialização das dívidas é hoje o principal entrave à concessão de crédito rural.
“Diversos escritórios têm promovido pedidos de recuperação judicial como uma solução mágica, mas em muitos casos, essa estratégia não se sustenta no longo prazo”, alertou Campos.
Detalhamento dos pedidos no 3º trimestre de 2025
Segundo o levantamento da Serasa, foram 497 pedidos de recuperação judicial relacionados ao agronegócio no 3º trimestre deste ano. O número se divide entre produtores rurais Pessoa Física (PF) e Pessoa Jurídica (PJ), com perfis distintos de endividamento.
Pessoa Física (PF)
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Total de pedidos: 255
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3T24: 106
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Alta anual: ~140%
Entre os produtores rurais pessoa física:
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84 pedidos vieram de arrendatários ou grupos familiares;
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69 pedidos foram de grandes proprietários.
Pessoa Jurídica (PJ)
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Total de pedidos: 242
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3T24: 92
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Alta anual: ~163%
Principais segmentos:
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Cultivo de soja: 156 pedidos
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Pecuária: 45 pedidos
A concentração nos setores de soja e carne bovina mostra que mesmo atividades tradicionalmente fortes do agronegócio estão sendo impactadas, seja por questões de mercado, clima ou estrutura de capital fragilizada.
Sinais de alerta para o setor
A deterioração da saúde financeira no agro pode estar ligada a expansões mal planejadas, endividamento em dólar sem hedge cambial e quedas de preços em commodities agrícolas no mercado internacional, em meio a custos ainda elevados com insumos e logística.
Marcelo Pimenta reforça que parte dos produtores tenta rolar dívidas antigas sem rever custos ou reduzir tamanho da operação, o que agrava o problema.
“É fundamental que credores utilizem análises de crédito baseadas em dados mais robustos, para evitar novos riscos sistêmicos no setor”, completou o executivo da Serasa.
Impactos no crédito rural
Com a elevação dos riscos, instituições financeiras têm adotado critérios mais rigorosos para concessão de crédito agrícola, o que afeta diretamente a safra 2025/2026. A dificuldade de acesso a capital pode comprometer:
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Compra de insumos (fertilizantes, defensivos);
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Renovação de maquinário;
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Investimentos em infraestrutura rural;
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Expansão de áreas produtivas.
Além disso, a insegurança jurídica provocada pela judicialização do campo gera incerteza sobre a efetividade de garantias reais, como terras ou equipamentos.
O cenário de aumento nos pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro exige atenção urgente de produtores, credores e do governo federal. A judicialização, se não contida, pode travar o crédito agrícola, fundamental para manter a competitividade do Brasil como potência agroexportadora.
A recomendação dos especialistas é que produtores avaliem cuidadosamente sua estrutura de endividamento, priorizando renegociações extrajudiciais, revisando planos de expansão, e adotando boas práticas de governança financeira para restaurar a confiança do mercado.