Conheça o grande risco para as empresas geradoras de energia elétrica

Entenda o que é curtailment, por que os cortes na geração solar e eólica estão aumentando no Brasil e os impactos para o setor elétrico.
curtailment

Nos últimos meses, o termo curtailment tem ganhado destaque e causado preocupação crescente entre empresas do setor elétrico no Brasil. Embora pareça um jargão técnico distante da realidade dos consumidores, o conceito está no centro de um problema bilionário que afeta diretamente a expansão das energias renováveis no país.

Curtailment, em tradução livre, significa “restrição” ou “limitação”. No contexto do setor elétrico, ele se refere à redução obrigatória da geração de energia de uma usina, mesmo quando ela estaria apta a produzir. No , esse fenômeno tem ocorrido especialmente com usinas solares e eólicas, que são fontes chamadas de “não controláveis”, ou seja, dependem das condições climáticas e geram energia de forma intermitente.

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Por que o curtailment acontece?

A principal razão é técnica: o sistema elétrico brasileiro precisa manter equilíbrio entre oferta e demanda em tempo real. Com a entrada massiva de fontes renováveis na matriz, especialmente no submercado Nordeste, a geração em certos momentos do dia supera o consumo. Como o operador do sistema () precisa evitar sobrecargas e manter a confiabilidade da rede, ele despacha ordens de corte, desligando parte dessas usinas — mesmo que estejam em pleno funcionamento e com boas condições de geração.

Além disso, o crescimento da geração distribuída (como painéis solares residenciais) e a falta de expansão na rede de transmissão também contribuem para o aumento dos cortes. O problema se agrava ao final do dia, quando a produção solar cai abruptamente e exige a entrada de outras fontes, como termelétricas e hidrelétricas, antecipando cortes nas renováveis.

A explosão dos cortes e prejuízos milionários

De acordo com dados da FSET, a média de cortes nas usinas solares do Nordeste passou de 4,8% em abril para 34,8% em setembro de 2024. Para as eólicas, o salto foi de 2,2% para 18,1% no mesmo período. O tipo de corte que mais cresceu foi o classificado como CNF (Confiança Elétrica), que considera a segurança da rede.

Os impactos financeiros são expressivos. Desde o início de 2024, os cortes geraram um prejuízo estimado de R$ 711 milhões para usinas eólicas e R$ 165 milhões para solares. Em setembro, o aumento foi de 125% em relação ao mês anterior, impulsionado por um PLD médio de R$ 280/MWh no Mercado de Curto Prazo (MCP), onde essas usinas ficam expostas quando não conseguem entregar a energia contratada.

Como o setor regula o curtailment?

A Resolução Normativa nº 1.030/2022 da Aneel estabelece as regras para o tratamento dos cortes. Ela define três tipos:

  • REL (Indisponibilidade Externa): quando o corte ocorre por falhas no sistema de transmissão.

  • CNF (Confiabilidade Elétrica): ligado à segurança da operação da rede.

  • ENE (Energia): quando há excesso de geração para a demanda.

Dentre esses, somente os cortes REL têm direito a ressarcimento, via Encargo de Serviço de Sistema (ESS), pago por todos os consumidores. Ou seja, boa parte das perdas das não é compensada atualmente, o que acirra o clima de insatisfação no setor.

Impacto sobre a expansão das renováveis

A onda de curtailment preocupa , geradores e desenvolvedores de projetos de energia limpa. Isso porque o fenômeno compromete a previsibilidade de receita, aumenta o risco de contratual e pode atrasar em novos empreendimentos.

Empresas do setor já se movimentam para buscar soluções. Algumas têm recorrido à via administrativa, com pedidos de compensação junto à Aneel e ao ONS. Outras apostam na judicialização, cenário semelhante ao que ocorreu com o GSF (Generation Scaling Factor) das hidrelétricas — um dos maiores embates do setor na última década.

O que esperar daqui para frente?

A tendência é que os cortes continuem crescendo, uma vez que o número de usinas solares e eólicas em operação segue aumentando. Ao mesmo tempo, a rede de transmissão não tem sido ampliada na mesma velocidade, e a demanda por energia não tem acompanhado o crescimento da oferta renovável, especialmente em horários de baixa .

Especialistas defendem que o Brasil precisa rever seu modelo de expansão do setor elétrico. Investimentos mais robustos em inteligência de rede, armazenamento de energia e flexibilidade do sistema são algumas das medidas sugeridas. Há também pressão para que a Aneel amplie os critérios de compensação para cortes involuntários, garantindo maior segurança jurídica para os empreendedores.

O curtailment já é uma realidade no setor elétrico brasileiro e tende a se tornar mais frequente com o avanço da transição energética. Sem um reequilíbrio entre oferta, demanda e infraestrutura, o sonho verde da energia solar e eólica pode enfrentar sérios obstáculos.

Empresas impactadas precisarão adotar estratégias de mitigação de risco, enquanto o e os reguladores terão o desafio de adaptar o sistema elétrico a essa nova realidade — evitando que o curtailment se transforme em um entrave permanente para o crescimento das renováveis no país.

Respostas de 2

  1. Interessante a colocação, mas pende para um único lado, o das empresas. Vamos para o lado do consumidor. Ao colocar uma usina em sua residência, o consumidor gera energia para si e consome no mesmo instante (enquanto tiver sol) e gera energia que manda para a rede e consome à noite. Vejamos então que a energia que o consumidor envia para a rede, coincide com o horário de trabalho da maioria das empresas e pessoas no país. Este envio para a rede proporciona uma redução na utilização de água nas hidro-elétricas, beneficiando o sistema nacional que pode gerar energia com mais tranquilidade para empresas que possuem alto-forno, por exemplo, e que não conseguem gerar a quantidade de energia que consomem através de painéis solares. Este é apenas um exemplo, existem mais tipos de empresas que demandam enorme consumo de energia. Então o que vejo é o sistema preocupado com o seu lado apenas e esquece do que os consumidores fazem.

  2. E porque, ao invés de desligar as solares e eólicas, não desligam as termoelétricas, que estão gerando aumento de tarifas para o cidadão?

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