O Banrisul (BRSR6), tradicional banco público do Rio Grande do Sul, está sob os holofotes do mercado financeiro após um relatório do BTG Pactual apontar riscos crescentes na carteira de crédito rural da instituição. Apesar de reconhecer que as ações do banco estão baratas, o BTG mantém recomendação neutra para os papéis, destacando que o cenário para o agronegócio ainda inspira cautela.
Segundo o banco de investimentos, o Banrisul enfrenta um risco de deterioração na qualidade de seus ativos, em meio à combinação de crises climáticas, inadimplência rural e volatilidade nos preços das commodities. A instituição gaúcha é fortemente exposta ao setor agropecuário — responsável por cerca de 20% da carteira total de crédito, o equivalente a R$ 13,4 bilhões.
Banrisul e o desafio do crédito rural
Nos últimos anos, o agronegócio brasileiro viveu um ciclo de alavancagem impulsionado pelos altos preços da soja e do milho. No entanto, a queda recente das commodities e os eventos climáticos extremos — especialmente as enchentes históricas que atingiram 96% dos municípios gaúchos — colocaram pressão sobre a capacidade de pagamento dos produtores.
De acordo com o BTG, R$ 4 bilhões da carteira rural do Banrisul já foram renegociados, enquanto R$ 400 milhões estão classificados como em estágio 3, ou seja, com risco elevado de inadimplência. O cenário, embora ainda controlado, exige uma gestão rigorosa para evitar que as perdas cresçam.
Em relatório, o BTG destaca que o banco gaúcho lembra o Banco do Brasil em seu perfil de crédito e exposição ao agronegócio, mas com menos diversificação e menor escala, o que aumenta sua vulnerabilidade a choques regionais e climáticos.
O papel da MP 1314 e a tentativa de alívio
O governo federal aprovou recentemente a MP 1314, que permite que instituições financeiras renegociem dívidas de produtores rurais em condições especiais. A medida deve trazer algum alívio temporário ao Banrisul, que pretende reclassificar clientes com empréstimos em atraso e recuperar parte da carteira em risco.
Segundo o relatório do BTG, a expectativa é que o banco eleve seu retorno sobre o patrimônio (ROE) para algo entre 14% e 15% até 2027, ante projeção atual de 11,2%.
“Mesmo assim, reconhecemos que retornar aos níveis anteriores de lucratividade não será fácil, uma vez que requer maior apetite para risco em um cenário macroeconômico ainda incerto, além de uma transformação digital e cultural desafiadora para um banco público e regional”, destacou o BTG.
Transformação digital e eficiência operacional
Além do desafio agrícola, o Banrisul enfrenta o imperativo da modernização tecnológica. A digitalização dos serviços bancários e a concorrência crescente de fintechs e bancos digitais pressionam instituições tradicionais a se reinventarem.
Nesse sentido, o Banrisul tem buscado investir em plataformas digitais, integração de canais e automação de processos internos, mas o ritmo ainda é considerado lento frente aos concorrentes privados.
A transformação cultural e operacional é apontada pelo BTG como um dos fatores decisivos para o futuro do banco. “O Banrisul precisa equilibrar sua função pública regional com a eficiência exigida pelo mercado”, destaca o relatório.
Resultados e avaliação do BTG
O BTG projeta que o lucro líquido do Banrisul no terceiro trimestre de 2025 será de R$ 300 milhões, uma queda de 21% em relação ao trimestre anterior, mas um crescimento de 52% em comparação ao mesmo período de 2024. O ROE projetado é de 11,2%, em linha com a média do setor público bancário.
O preço-alvo definido pelo BTG para as ações do Banrisul é de R$ 12, ligeiramente abaixo da cotação atual de R$ 12,40. Por isso, a casa mantém recomendação neutra, avaliando que os papéis estão justamente precificados diante dos riscos e perspectivas atuais.
“Ainda que o valuation seja atrativo, preferimos aguardar maior visibilidade sobre o impacto real das renegociações e da MP 1314 na carteira rural antes de revisar nossa recomendação”, conclui o BTG.
Banrisul entre o risco e a recuperação
O Banrisul enfrenta um momento decisivo. Com um legado de mais de 90 anos e papel fundamental na economia gaúcha, o banco tenta equilibrar sua vocação pública com a pressão por eficiência e lucratividade.
A exposição ao agronegócio continua sendo uma faca de dois gumes: uma vantagem competitiva em tempos de bonança, mas uma fonte de risco quando o campo sofre. Para o mercado, o desafio será saber se o Banrisul conseguirá se reinventar sem perder sua identidade — e sem repetir os erros que hoje afetam o Banco do Brasil.