A 3ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro deferiu nesta quinta-feira (30) o pedido de recuperação judicial da Ambipar (AMBP3), formalizando o início do processo de reestruturação financeira do grupo. A decisão marca uma nova fase para a companhia, que vinha enfrentando dificuldades após um longo período de alavancagem e desaceleração dos negócios.
O deferimento, assinado pelo juiz Leonardo de Castro Gomes, confirma que o processo tramitará no Rio de Janeiro, contrariando a vontade de parte dos credores, que defendiam que a sede judicial deveria ser São Paulo, onde fica a administração corporativa.
A notícia teve impacto imediato no mercado: as ações da Ambipar (AMBP3) dispararam cerca de 12%, sendo negociadas a R$ 0,37 por volta das 14h30, impulsionadas pela percepção de que a decisão garante fôlego para a empresa renegociar dívidas e preservar suas operações.
Ambipar (AMBP3): início do período de proteção judicial
Com a decisão, a Ambipar entra no chamado stay period, período de 180 dias de suspensão de execuções e cobranças por parte de credores. Esse intervalo é destinado à elaboração e apresentação do plano de recuperação judicial, documento que deverá detalhar as condições, etapas e cronograma da reestruturação das dívidas da empresa.
Durante esse tempo, o grupo poderá negociar de forma estruturada com seus credores, buscando um consenso sobre prazos, pagamentos e eventuais descontos. O objetivo, segundo a própria Ambipar, é preservar empregos, honrar compromissos operacionais e restabelecer a capacidade de geração de caixa.
Na decisão, o juiz destacou que o grupo possui viabilidade econômica, com operações sólidas e geração de caixa positiva, o que justifica a concessão da medida.
“Como premissa, descrevem adequada saúde financeira e de caixa, com manutenção em dia da folha salarial, das obrigações com fornecedores, instituições financeiras e tributos, estes somando, anualmente, cerca de R$ 500 milhões, além da geração de aproximadamente 23 mil empregos diretos”, afirmou o magistrado.
Competência da Justiça do Rio e controvérsia entre credores
A decisão do Rio de Janeiro encerra uma disputa judicial sobre a competência territorial do caso. Os credores argumentavam que a Ambipar estaria praticando forum shopping, isto é, escolhendo propositalmente o foro do Rio de Janeiro para obter um tratamento mais favorável da Justiça.
No entanto, o desembargador Mauro Pereira Martins, relator do processo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), confirmou que o grupo de fato concentra sua gestão operacional e comercial na capital fluminense, validando a tramitação do processo no estado.
“As provas documentais produzidas até o presente momento processual dão conta de que o Grupo Ambipar concentra gestão e concretização de maior volume de negócios na Capital Fluminense”, citou o juiz Leonardo Gomes em sua decisão.
Estrutura unificada e abrangência do processo
O magistrado reconheceu que a Ambipar é controlada por uma única holding, com estrutura administrativa e financeira unificada, o que justifica o tratamento consolidado das mais de 60 empresas controladas no processo.
Segundo a decisão, a segregação das operações e passivos “exigiria dispêndio excessivo de tempo e recursos”, sendo mais adequado o tratamento conjunto. Isso significa que a recuperação judicial incluirá todas as companhias operacionais do grupo, no Brasil e no exterior.
O passivo total do conglomerado é estimado em R$ 10,7 bilhões, sendo R$ 7,86 bilhões em dívidas sujeitas à recuperação judicial no Brasil e o restante distribuído entre obrigações internacionais.
Em paralelo, a Ambipar também protocolou um pedido de proteção judicial nos Estados Unidos, com base no Chapter 11 do U.S. Bankruptcy Code, mecanismo que visa proteger empresas estrangeiras com ativos e operações naquele país.
Ambipar segue operando normalmente
Apesar da crise financeira, a Ambipar mantém operações regulares em todas as suas unidades de negócios, incluindo gestão ambiental, resposta a emergências e logística industrial. Segundo a companhia, a recuperação judicial tem como objetivo reestruturar o endividamento, e não interromper atividades.
A empresa também destacou que está em dia com salários, fornecedores e tributos, e que a medida busca apenas reorganizar a estrutura financeira diante do elevado custo da dívida e da pressão cambial.
O grupo afirmou ainda que o plano de recuperação deverá ser apresentado nas próximas semanas, com foco em preservar valor econômico e fortalecer a governança corporativa.
Mercado reage positivamente: confiança na reestruturação
O deferimento da recuperação judicial foi visto por analistas como um passo necessário para evitar o colapso financeiro da companhia. A decisão trouxe alívio aos investidores, que enxergam no processo uma oportunidade de reorganização e eventual recuperação das ações.
Segundo analistas, o movimento de alta de 12% dos papéis da Ambipar (AMBP3) nesta quinta-feira reflete alívio momentâneo, mas o desempenho futuro dependerá da capacidade da empresa de apresentar um plano sólido e exequível.
Ainda assim, a reação positiva indica que o mercado precifica a sobrevivência do grupo e não um cenário de liquidação. A Ambipar, que se destacou por seu crescimento acelerado via aquisições nos últimos anos, agora tenta consolidar uma nova fase de eficiência e estabilidade.