Dois dias depois da captura de Nicolás Maduro, o futuro da Venezuela segue aberto. A queda do presidente encerrou um capítulo, mas não entregou respostas claras sobre quem manda no país, qual será o papel da oposição, como ficará o petróleo e até onde vai a pressão dos Estados Unidos.
Para quem acompanha a política internacional ou observa oportunidades e riscos no mercado, o momento exige atenção. As decisões tomadas agora podem redefinir o futuro da Venezuela e influenciar preços de ativos, fluxo de investimentos e o equilíbrio político na América Latina.
1. Quem comandará o país de fato?
A primeira grande incógnita sobre o futuro da Venezuela é simples de formular, mas difícil de responder: quem está no comando. Após a captura de Maduro, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a Presidência de forma interina. O Exército reconheceu sua autoridade e os demais membros do governo permaneceram nos cargos.
Na prática, caiu o presidente, mas não o regime. Rodríguez realizou seu primeiro conselho de ministros no domingo, 4, e criou uma comissão de alto nível para buscar a libertação de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Em discurso, adotou um tom pragmático e afirmou estar aberta a colaborar com os Estados Unidos em uma agenda de “desenvolvimento compartilhado”.
Do lado americano, Donald Trump reforçou a pressão. Disse publicamente que os EUA passaram a governar a Venezuela por meio de influência política. Apesar disso, Washington informou que não pretende enviar tropas neste momento. Os militares que capturaram Maduro já deixaram o país, e a estratégia atual envolve cercar a Venezuela pelo mar.
A lei venezuelana prevê novas eleições quando a vice assume por ausência indeterminada do presidente, mas não há qualquer data definida. Para o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, discutir eleições agora é prematuro. Esse impasse institucional é um dos pontos centrais que moldam o futuro da Venezuela.
2. Explorar o petróleo da Venezuela não será fácil nem barato
O petróleo é o segundo grande eixo dessa história e talvez o mais relevante para investidores. Trump deixou claro que quer garantir acesso de empresas americanas ao petróleo da Venezuela, país que concentra cerca de 20% das reservas globais. O problema é que transformar esse potencial em produção exige muito mais do que vontade política.
Ao longo dos últimos anos, a infraestrutura petrolífera venezuelana foi sucateada. Faltaram peças, máquinas e profissionais qualificados, muitos dos quais deixaram o país durante a crise econômica. As sanções americanas também fecharam o acesso a insumos essenciais. O resultado aparece nos números: a produção diária caiu de cerca de 3 milhões de barris, nos anos 2000, para aproximadamente 700 mil barris atualmente.
Segundo estudo da consultoria Rystad Energy, citado pela The Economist, seriam necessários cerca de US$ 110 bilhões em investimentos para recuperar a capacidade produtiva. Isso equivale ao dobro de tudo o que petroleiras americanas investiram em 2024. Ao mesmo tempo, o barril gira perto de US$ 50, e há oferta em países como Brasil e Guiana, com ambientes mais estáveis.
Esse cenário levanta dúvidas sobre o apetite das empresas. Para David Goldwyn, do Global Energy Center do Atlantic Council, poucas companhias devem retornar antes de regras fiscais claras, segurança jurídica e estabilidade política. Sem isso, o petróleo deixa de ser solução imediata e se torna mais um fator de incerteza no futuro da Venezuela.
3. A oposição ficou à margem do novo cenário
Outro ponto-chave sobre o futuro da Venezuela é o papel da oposição. Muitos partidos esperavam assumir protagonismo após a queda de Maduro, mas isso não ocorreu. No sábado, 3, Trump questionou a capacidade de Maria Corina Machado para governar o país e não mencionou Edmundo González, reconhecido pelos EUA como vencedor das eleições presidenciais de 2024.
Com aliados de Maduro ainda controlando o governo, não está claro como ou se a oposição participará do processo político. O histórico recente pesa contra: prisões, sequestros e impedimentos de candidatura enfraqueceram lideranças e estruturas partidárias ao longo das últimas décadas.
Para o professor Roberto Uebel, da ESPM, não seria surpreendente se Delcy Rodríguez se tornasse a candidata governista em uma eventual eleição. Ela tem apoio interno, respaldo militar e, até agora, conta com a aceitação de Washington, o que pesa diretamente nas perspectivas do futuro da Venezuela.
4. O alerta para os países vizinhos
A forma como Maduro foi capturado também mudou o clima político na região. Para muitos governos, a ação foi interpretada como um recado direto dos EUA a países que contrariem seus interesses. Autoridades americanas passaram a fazer ameaças, especialmente contra Cuba e a Colômbia.
Cuba mantém um regime socialista e sofre sanções há décadas. Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro é crítico de Trump, enquanto os EUA acusam o país de ser fornecedor de drogas. Esse ambiente elevou a tensão diplomática e levou países latino-americanos a discutir mecanismos de defesa para evitar episódios semelhantes.
O tema chegou ao Conselho de Segurança da ONU. A Carta da ONU proíbe a violação da soberania entre países, mas qualquer ação depende de autorização do conselho, onde os Estados Unidos têm poder de veto. Esse fator amplia o peso geopolítico das decisões sobre o futuro da Venezuela.
Por que tudo isso importa?
Mais do que uma troca de presidente, o que está em jogo é o desenho do próximo ciclo político e econômico do país. O futuro da Venezuela será definido pela combinação entre pressão externa, estabilidade interna e capacidade de reconstrução econômica, especialmente no setor de petróleo.
Para quem investe ou pensa em investir, o momento exige cautela e acompanhamento próximo. As próximas decisões de Washington, a permanência de Delcy Rodríguez no poder e a reação da oposição serão determinantes para saber se a Venezuela caminha para estabilidade ou prolonga um período de incertezas.