A conta dos juros no Brasil já ultrapassa R$ 1 trilhão por ano — dinheiro suficiente para construir 30 milhões de casas populares, triplicar o orçamento da saúde e ainda financiar todas as universidades públicas por uma década.
Mas, em vez de significar investimento e prosperidade, essa montanha de dinheiro revela o oposto: o preço da inércia fiscal e de um país que aprendeu a conviver com o desperdício.
“O Brasil é um país caro, ineficiente e pouco inovador”, resume o economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica e presidente do Insper. “Protege empresas ineficientes, distribui privilégios e não estimula produtividade nem crescimento.”
Enquanto grandes conglomerados desfrutam de créditos subsidiados e isenções tributárias permanentes, o cidadão comum enfrenta juros que consomem metade da renda e um Estado que, segundo Lisboa, se tornou “refém de suas próprias distorções”.
Um país que se acostumou ao desperdício
Para Lisboa, o Brasil não vive uma tragédia — vive algo mais perigoso: a mediocridade prolongada.
“O mundo enriqueceu e a gente ficou para trás. Não somos a Venezuela. Aqui é medíocre — escolhemos ser um país medíocre”, afirmou durante o podcast Outliers InfoMoney.
“Gostamos da mesada do governo e de um setor privado que depende do Judiciário”, completou.
O economista afirma que o vício em gastos públicos virou o principal freio da economia.
“Cada tentativa de ajuste fiscal é bloqueada por grupos que não querem perder benefícios. E assim, o país segue gastando mais do que arrecada — e crescendo menos do que poderia.”
O labirinto da insegurança jurídica
Lisboa também aponta que o ambiente institucional brasileiro é caótico, o que aprofunda o problema.
“A Justiça do Trabalho, a Receita Federal e órgãos de controle frequentemente interpretam a lei em vez de aplicá-la”, disse. “Isso cria um sistema imprevisível e desfuncional, onde ninguém sabe o que vale amanhã.”
Essa instabilidade, somada à falta de governança e coordenação política, desestimula investimentos produtivos e faz com que o país dependa cada vez mais de crédito público — a forma mais cara de crescer devagar.
O paciente ainda respira
Para Lisboa, o diagnóstico é grave, mas há tempo de reverter.
“O Brasil vive um momento de tensão econômica que especialistas descrevem como sintoma de saúde grave, mas não terminal”, comparou.
Ele lembra que o país já enfrentou colapsos maiores — da hiperinflação ao apagão fiscal dos anos 1990 — e saiu deles com reformas e coragem política.
“A gente só muda quando chega ao limite. E esse limite está cada vez mais perto.”
A mediocridade como escolha
O economista encerra com uma provocação: o Brasil não é vítima do acaso — é cúmplice do próprio atraso.
“Enquanto o país continuar gastando demais com poucos e oferecendo de menos à maioria, continuará escolhendo a mediocridade.”