O fundo de previdência do RJ, o Rioprevidência, voltou a aplicar R$ 1 bilhão no Banco Master, mesmo após alertas formais do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) sobre os riscos de concentração de investimentos na instituição financeira. O caso, revelado em relatórios técnicos do órgão de controle, reacende preocupações sobre a gestão e a segurança dos recursos previdenciários de mais de 235 mil servidores públicos estaduais.
TCE aponta concentração de 25% dos recursos no Banco Master
De acordo com o monitoramento do TCE-RJ, os novos aportes foram realizados entre maio e julho de 2025, período em que os problemas de liquidez e governança do Banco Master já eram amplamente conhecidos pelo mercado.
O levantamento mostra que, ao final de julho, o fundo de previdência do RJ tinha R$ 2,6 bilhões aplicados em produtos financeiros ligados ao Master, o equivalente a mais de 25% do total dos ativos administrados pelo Rioprevidência. Essa concentração foi classificada pelo tribunal como “crítica” e incompatível com as boas práticas de gestão de fundos públicos.
Com base nessa avaliação, o TCE determinou que o fundo suspenda imediatamente novos investimentos em instrumentos financeiros emitidos, administrados ou geridos pelo Banco Master e recomendou que o governador Cláudio Castro avalie intervenção direta na autarquia para garantir transparência e prudência nas futuras aplicações.
Rioprevidência nega novas aplicações e diz seguir determinações
Em nota oficial, o Rioprevidência informou que não realizou novas aplicações no Banco Master desde abril de 2024 e que cumpre integralmente as orientações do TCE. A autarquia afirmou ainda que o valor efetivamente investido é de R$ 960 milhões, e não R$ 2,6 bilhões, como aponta o relatório técnico.
Segundo o fundo, as operações estão regulares e adimplentes, e a instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a legalidade e a segurança na gestão dos recursos que sustentam as aposentadorias e pensões dos servidores estaduais.
Banco Master segue sob escrutínio do mercado
O caso se desenrola em meio à crise financeira e institucional do Banco Master, que enfrenta reestruturações internas e aumento de capital supervisionado pelo Banco Central. O grupo, liderado por Daniel Vorcaro, teve uma tentativa de venda ao Banco de Brasília (BRB) rejeitada pelo regulador e vem sendo monitorado devido a sinais de pressão de liquidez.
No mercado, analistas destacam que o Banco Master não conta com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para letras financeiras, o que aumenta o risco dos investidores — especialmente quando se trata de fundos públicos de previdência.
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) anunciou recentemente que limitará a remuneração dos CDBs a 120% do CDI para novas emissões de bancos médios — uma decisão motivada, em parte, pelas distorções causadas pelo caso do Master.
Além disso, a Reag Investimentos confirmou a compra de CDBs do Banco Master por um fundo investigado na Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal. A operação apura supostas irregularidades financeiras e omissões de informação
Investigação do TCE começou após denúncia
A investigação sobre o fundo de previdência do RJ teve início em 2024, após denúncia do deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSD-RJ). O processo apura supostas irregularidades na aplicação de recursos sem autorização formal do conselho de administração e com justificativas inconsistentes.
Ex-diretores do Rioprevidência explicaram que a decisão de investir no Banco Master foi tomada com base nas taxas de retorno acima de 130% do CDI e na relação contratual que a instituição mantém com o governo do estado, oferecendo crédito consignado a servidores ativos e aposentados.
Em dezembro de 2024, o TCE já havia classificado os investimentos como de alto risco, recomendando maior diversificação da carteira e alertando para o risco de “gestão possivelmente irresponsável” dos recursos.
Governo é cobrado a agir e reforçar governança
O governo do Rio de Janeiro ainda não se pronunciou oficialmente sobre a recomendação de intervenção feita pelo TCE-RJ. A expectativa é que o governador Cláudio Castro avalie a adoção de medidas corretivas nas próximas semanas.
Enquanto isso, a Secretaria-Geral de Controle Externo deve intensificar o acompanhamento das operações e verificar se houve novas renovações ou aportes indiretos ao Banco Master após a última decisão plenária.
O episódio levanta um debate mais amplo sobre a fiscalização dos regimes próprios de previdência social (RPPS) no Brasil. Especialistas defendem regras mais rígidas de alocação de recursos e transparência total nas carteiras públicas, evitando que fundos estaduais e municipais sejam expostos a riscos desproporcionais.
Contexto e impacto para os segurados
Com mais de R$ 30 bilhões em ativos, o Rioprevidência é um dos maiores fundos estaduais do país. Qualquer instabilidade em seus investimentos pode afetar diretamente a sustentabilidade do sistema previdenciário e a capacidade de pagamento futuro de aposentadorias e pensões.
Analistas ouvidos pelo setor financeiro destacam que, embora o caso ainda esteja sob apuração, o alerta do TCE reforça a necessidade de gestão técnica e independente dos fundos públicos, longe de pressões políticas ou de decisões de alto risco.