Um grupo formado por 35 ministros de Finanças apresentou nesta quarta-feira (15) um plano ambicioso para ampliar o financiamento climático global para US$ 1,3 trilhão por ano, um dos principais temas de debate antes da COP30, que será realizada em novembro, em Belém (PA).
O documento, divulgado durante as reuniões anuais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, foi elaborado pelo Círculo de Ministros de Finanças para o Clima, grupo criado para discutir soluções financeiras de combate às mudanças climáticas e atualmente liderado pelo Brasil.
Trata-se do primeiro relatório do gênero, com 111 páginas de propostas que visam reformular o sistema financeiro internacional e incentivar investimentos sustentáveis em países em desenvolvimento.
Proposta para repensar as finanças climáticas
O relatório recomenda mudanças profundas nas políticas de crédito, seguro e empréstimo dos bancos de desenvolvimento, além de revisões nas classificações de risco e critérios de financiamento climático.
A meta é aumentar a oferta global de recursos voltados à adaptação e mitigação das mudanças climáticas, especialmente em nações que sofrem mais intensamente os impactos ambientais e dispõem de menor capacidade fiscal.
Em comunicado conjunto, os ministros afirmaram que “cada ano de atraso na ação climática aumenta o valor do investimento necessário e os riscos enfrentados por todos os países”.
Segundo o texto, US$ 1,3 trilhão por ano é o montante mínimo para viabilizar a transição energética global e reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
A secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Tatiana Rosito, ressaltou a importância de envolver as áreas econômicas na formulação de políticas climáticas.
“Queríamos realmente integrar as políticas macroeconômicas e climáticas”, disse à Reuters. “Os ministros das Finanças também fazem parte das diretorias dos bancos de desenvolvimento e podem contribuir com soluções concretas.”
Rosito destacou que o sistema financeiro global ainda é um “gargalo” para a transição verde, já que muitos países enfrentam juros elevados, barreiras regulatórias e ausência de instrumentos de crédito climático acessíveis.
Conexão entre Baku e Belém
O relatório será incorporado ao documento Baku a Belém, uma espécie de plano de transição entre as COP29 (realizada no Azerbaijão) e COP30. O texto consolidará as recomendações financeiras e técnicas para viabilizar o aumento dos investimentos climáticos.
No entanto, diplomatas confirmaram que o relatório não está oficialmente incluído na agenda formal da COP30, o que tem gerado discussões entre delegados sobre como aplicá-lo.
Em Baku, as nações ricas haviam se comprometido a destinar US$ 300 bilhões anuais em financiamento climático até 2035 — valor criticado como insuficiente por países emergentes. Estimativas da ONU indicam que as economias em desenvolvimento precisarão de pelo menos quatro vezes esse valor para cumprir metas de adaptação e mitigação.
A proposta brasileira de elevar o volume total a US$ 1,3 trilhão anuais busca corrigir essa defasagem e impulsionar a ambição climática global antes da conferência em Belém.
Ajustes e compromissos
Embora o relatório tenha sido amplamente elogiado, algumas recomendações da versão preliminar divulgada em agosto foram suavizadas. A proposta inicial previa que os fluxos de financiamento concessional externo deveriam atingir US$ 250 bilhões anuais até 2035, mas esse trecho foi retirado do texto final.
Segundo Rosito, o grupo de ministros buscou tornar as recomendações mais realistas e aplicáveis, após meses de consultas com governos e instituições multilaterais.
Outros pontos reforçados incluem:
-
Criação de mecanismos de crédito baseados em riscos de projeto, e não apenas em riscos de país;
-
Coordenação entre mercados de carbono para definir um preço global de carbono;
-
Expansão do papel dos bancos multilaterais de desenvolvimento na estruturação de investimentos verdes;
-
Estabelecimento de fundos climáticos regionais para financiar projetos de adaptação e energia limpa.
Expectativas e desafios para a COP30
O lançamento do relatório ocorreu paralelamente às reuniões pré-COP30 em Brasília, que reuniram delegações de mais de 70 países. Os debates serviram para ajustar a agenda e definir critérios de monitoramento das metas de Paris, especialmente sobre adaptação climática e financiamento sustentável.
Contudo, ainda há divergências sobre o formato final da conferência. Segundo o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, nem todos os países concordam em firmar um acordo global definitivo em Belém. A alternativa seria focar em acordos parciais, que não exigem consenso entre todas as partes.
“A COP tem essa dinâmica de suspense, em que muitas decisões são tomadas apenas nos últimos dias. Mas já há avanços e pré-consensos importantes”, disse Corrêa do Lago a jornalistas.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, reforçou o compromisso do Brasil com a transição energética e a descarbonização da economia, destacando que a redução do uso de combustíveis fósseis não pode ser seletiva.
“Há um conjunto de decisões, e todas elas precisam ser tratadas igualmente”, afirmou Marina, em resposta a críticas de países produtores de petróleo.
Caminho até Belém
A COP30, que acontecerá em novembro de 2025, marca uma etapa decisiva para o Acordo de Paris, ao avaliar o progresso real das metas de redução de emissões. Com o Brasil na liderança, espera-se que o encontro fortaleça a integração entre política econômica e ambiental, buscando soluções financeiras viáveis para acelerar a transição verde global.
Apesar do otimismo, analistas apontam que o desafio político e fiscal é enorme: elevar o financiamento climático de US$ 300 bilhões para US$ 1,3 trilhão exigirá cooperação internacional inédita, reformas nas instituições financeiras globais e compromissos firmes das economias avançadas.